É nóis, maluco

Olha, eu não sei como você caiu aqui. Mas já que tá, não custa um comentário p'ra deixa pegada forte na opinião do baguio. Suave!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

constatou que na estrada a paisagem é bonita às vezes.  só às vezes.
na maior parte do caminho cruza vielas,  chão de terra batido.  chão aterrado com lata de cerveja amassada, saquinho de leite do mês passado,  bitucas de cigarro. ele vê um céu atravessado por fios de gambiarra.  olha pra frente e avista casas irregulares com paredes descascando. cinza e mofo.
o cheiro do transporte é suor coletivo. as vozes cansadas e conformadas no agudo. 
aí, ele coloca um fone no ouvido. a música francesa e tudo se transforma.  a miséria vira clipe. as pessoas tomam classe e seus passos ficam lentos.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

às vezes o tempo pára e o real se converte num clipe.  meu fone nos ouvidos: o muro e a gente dança.  aí o que tenho são olhares,  rostos franzidos,  e gargalhadas sem som. a vida é GIF.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Fim de Semestre

o teatro na escola nessa escola
(ah, aquele menino
que conheceu o teatro na escola
lá atrás...)
PRAZER, SOU DIONÍSIO!

aquele menino querendo ser plínio querendo ser nelson querendo ser shakespeare
aquele menino lá atrás
redescobre o teatro político
de bandeiras sem siglas
de discursos não hipócritas
de possibilidades adolescentes
(daqueles que se permitem e vislumbram o futuro!)
de estratégias nobres
de bom combate
PRAZER, SOU A ESPADA
ele que andou por alguns palcos algumas praças alguns galpões
reencontrou o teatro
na nessa escola
PRAZER, SOU APOLO!
o teatro na escola nessa escola
é de possibilidades
é de "juntos"
PRAZER, SOU CORO!
o teatro na escola nessa escola
é de gritos
de cantorias
de composições próprias
PRAZER, SOU O BODE - SEU SACRIFÍCIO
o teatro na escola nessa escola
é de guitarra bateria e contrabaixo
é punk
é rock
é samba
é macumba
PRAZER, SOU O VINHO!
o teatro na escola nessa escola
é feminino
é negranegro
é o outro
É ELE/ELA
é pra o outro
é além muro
é diferença
PRAZER, SOU ÚNICO
SOU ARENA
SOU PALCO
SOU CARROÇA
SOU PÁTIO
SOU QUADRA
SOU SALA
SOU ÁRVORE
SOU VIOLÃO
somos corpo voz e coração
tão novo
somos só isso
e
podemos
tudo
pode mundos no teatro na escola nessa escola
(o teatro na escola nessa escola
não é didático
rá!)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

se viu sozinho. pelado numa igreja vazia. um corpo surrado pedindo clemência num espaço santo sem imagens, sem bancos com encostos para joelhos e convites pra rezas e penitências.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

é que o pote de ouro não está no final do arco íris. não, não está. a travessia é de poucas cores. atravessamos por pedras, caminhos de lixo e, sim, por vezes, estradas mais coloridas.
o pote de ouro não é o que você quer no momento. o pote de ouro é além. o pote de ouro é reposta da vida para o seu caminhar. e a vida não tem pressa. a vida não tem tempo, ou o tempo dela é outro. a tua neurose, tua pequena necessidade, o valor que você acha que tem, não interessa para a vida. a vida gosta de insistência, a vida gosta de caminhada longa. e o pote de ouro é destino. e o destino é moldado passo a passo. a cada micro segundo uma bifurcação e uma escolha a ser feita.

terça-feira, 30 de junho de 2015

mar de estrelas

ele estava 1/4 vazio até chegar domingo. e talvez nem sabia. ou não queria saber. ele e o teatro se bastavam até o domingo. ele e suas discussões em mesa de bar. ele que adora um boteco, encontrar os amigos e falar sobre princípios e fins de universos. ele que tanto gosta de falar e se impor. que tanto defende suas ideias e suas causas. ele teve sua casa invadida naquele domingo. e uma bandeira fincada em seu terreno.
até agora não se sabe como ele chegou lá, naquele domingo. parece mesmo que foram séculos levado por ventos.
ele se vê naquele quintal: aquele churrasco. aquela música. aquela dança. aqueles risos. aquela gente festejando.
ele a olhou. e não esboçou reação. só permitiu que sua áurea reverberasse o convite. convite aceito cautelosamente. dois banquinhos, esses de plástico feitos para suportar ares com leveza. 15 minutos de conversa, ou meia hora, ou uma, ou duas, ou três horas. ou minutos. ou tempo que não existe. tempo parado - o "pedido" da outra boca - o pedido aceito - a comunhão. o beijo de boca de sorrisos, de leveza e descobertas. bocas que sem ansiedade decifravam mistérios.
daqui a pouco, ele no banco da carona. ele olhando para ela. tentando perceber a correspondência. ele com lágrimas que não caia. ele estava feliz. tinha certeza que encontrara gente rara. gente que se permite e se revela por beijos e sorrisos. e por voz mansa. e por delicadeza de corpo. essa gente rara que anda cercada de anjos de todos os tamanhos, de todos os tipos de cabelo, de toda cor de pele. gente que passa por provações e não perde a fé na vida e no fino trato com o outro.
ele teve um boa noite de sonhos no domingo. dormiu sem querer resolver o enigma daqueles olhos. aqueles únicos olhos. se permitiu ser adolescente e percebeu que não tem nada de bobo nisso. bobagem é resistir.
é, o padre estava certo:
a salvação está nos domingos!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

a poesia te espera entre as mãos do seu velado pai
nas lágrimas contidas e secas de tua mãe

está lá
num raio de ação mais próximo
que o claro quando abrir os olhos

está esperando seu encontro
fugindo de você

a poesia tem riso cínico
como se dissesse de canto de lábios
"sou necessidade tua?"
"precisa de mim?"
"tá vazio aí dentro"

a poesia correu das borboletas lindas de cecíla meireles
e está próxima de você
quer beber o seu terror
seus desejos menos fofos

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

carta a um amigo

sabe, cara
toda vez que eu dialogo com o abismo escuro numa profundidade a beira do insuportável, no outro dia me vem fé e amor.
chega, quase entregue por anjos, uma crença inabalável de que essa loucura que nos faz rude e destemperado perante a vida tem a mesma força de uma loucura onde vejo humanos trilhando um caminho leve e amoroso.
o dia seguinte ao confronto com sombras é sempre muito cruel.
e a pergunta é:
"onde e quando foi que eu me perdi?
que o homem se perdeu"

cara,
hoje repensei meu mundo

sabe, cara
ontem em algum momento cobrei a sua persistência.
estava me cobrando
dolorosamente
a continuar
SEMPRE

e decidi que quero viver em busca da luz e do amor
deixar a alma aberta
ser mais paciente comigo e com os outros
e mentalizar coisas boas
para todos

abdicar de pensamentos que não vergam
e metamorfosear-me em água

sim, pode ser tudo uma ilusão!
mas o outro lado também não é?

.

uma boa semana, cara
e até

domingo, 3 de agosto de 2014

o quintal velho com baldes velhos e paredes de cores diferentes
tinta gasta
chão rachado
varal de ponta a ponta com roupas velhas

o quintal de tanque trincado
de máquina de lavar roupas antiga e barulhenta

o sol também visita este quintal.

domingo, 29 de junho de 2014

fechou os olhos. desceu as pálpebras com muita força e evocou a entidade 3 vezes
o silêncio se fez
nada
vazio

"minha confissão não vem carregada de culpa."

lentamente
no compasso de uma respiração
abriu os olhos e
estava mais negro que nunca
oco

dirigiu-se ao nada
em pensamentos que eram mais concretos que a fala

"me construí um ser humano pior"

"maltrato meu corpo minha cabeça noite anoite
coração pulmão fígado cérebro
língua
ouvidos"

"gasto joelhos e pés
carne e ossos e facas
em lugares longínquos
no mesmo círculo de idiotices"

"ODEIO O/"

e foi interrompido pela luz
e fez-se a luz
intensa e quente

viu em suas mãos
um revólver
desses de pequeno porte

(estava lá
carinhosamente entrelaçado em seus dedos
de unhas compridas e sujas )

ouviu a voz
que era mais concreta
mais tenebrosa que seus pensamentos:
FAÇA

paralisou estancou quis gritar e não pôde
olhos arregalados!

ouvia seu coração
o fluxo do sangue quente e veloz
como jamais tinha sentido
a cabeça
ah, a cabeça
pensou tanto
tanta coisa ao mesmo tempo
que teve que gotejar raciocínio em água salgada
escorrendo em seus poros e orifícios.

sem soluços

novamente a voz:
IDIOTA


quinta-feira, 26 de junho de 2014

eu vejo beatles no telhado.
o anão corre
desenfreado
passo a passo seguia
perseguia o homem alto

inacreditável
o anão
alcançava o homem de pernas compridas
e seus pequenos pulmões não se cansavam
e suas pernas curtas com rodinhas nos pés
davam trabalho ao homem alto
corriam em ruas quase já atravessadas

até que o homem
já cansado homem
achou uma casinha
velha e bagunçada
de gente conhecida

(pessoas de um passado lá trás
quase insignificante passado)

e o homem abrigou-se na casa confusa
e viu
poucos pequenos cômodos
amontoados de gente antiga

tinha moças bonitas
tinha crianças
tinha a velha num canto e

tinha também
o filhote do cão
naquele sofá de espumas fora
de imitação de couro florido rasgada

o cãozinho negro
de dentes afiados
pequenininhos
sem força para o sangue
mordia roía não parava de comer
o dedo
os dedos
do homem



domingo, 8 de junho de 2014

já acorda vestindo preto
luto matinal
tentando levar a xícara até a boca
tão preto do café!
o palco me tragou

abriu-se um buraco infinito
entre as madeiras que compunham aquele tablado
refletores se apagaram
e se soltaram das varas no black out
um a um caindo
fizeram uma chuva de não luzes

ninguém na plateia
ninguém atrás da luxuosa cortina vermelha
texto mudo
palavras sem som




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

para aqueles que te apunhalam pelas costas
mostre-se inerte
deixe o sangue se esvair
e então
vire-se de frente
e sorria dubiamente

e vire as costas novamente
e continue sua caminhada

não, isso não é fugir do bom combate
é mais assustador revelar-se imortal